O impacto do documentário: "Lisboa Domiciliária"
O Sapo destacou um documentário sobre a velhice em Lisboa, Lisboa Domiciliária, que estreia hoje. Uma velhice solitária e confinada a uma casa, muitas vezes degradada. Em que o apoio domiciliário é talvez a única ligação com o mundo lá fora.
Nas minhas deambulações pelas ruas de Lisboa, em 99 e 2000, vi muitos rostos em janelas de prédios antigos. A cidade não é amiga da velhice, isso já me parecia evidente. A velhice quer convívio, companhia. Talvez como em nenhuma outra fase da vida, a não ser a infância, a velhice perde qualidade na solidão de uma casa vazia, onde as fotografias espalhadas pelos móveis não são suficientes para afastar a sensação de abandono.
Por isso, embora tantos de nós concordemos que é preferível manter uma pessoa no seu espaço, o lugar das suas memórias e rotinas, com apoio domiciliário, verificamos que isto é também um risco. E independentemente do risco, não é a situação ideal.
Visualizei aqui o que seria ideal para uma velhice com qualidade, dignidade e satisfação emocional e afectiva. Espaços adequados, e o ideal é que funcionassem essencialmente como aqueles clubes privados que vemos nos filmes ingleses e americanos - cá chamam-se centros de dia. Com pessoal treinado e com o perfil certo, para acolher e animar, desafiar para actividades estimulantes, e onde se organizassem festas, peças de teatro, viagens... Bem, já me entusiasmei...
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Amar o Cinema: Martin Scorsese
Raramente veremos alguém tão inflamado e transfigurado como Martin Scorsese quando fala de Cinema e dos grandes cineastas do séc. XX. Desta vez foi nos Globos de Ouro 2010 que vi ontem até às tantas.
É realmente enternecedor ver este homem baixinho, de óculos enormes, entusiasmado com o trabalho de restauro dos filmes de Cecil B. DeMille. É esse lado apaixonado pelo Cinema que eu mais aprecio em Scorsese, embora lhe reconheça um enorme talento. Aquele Taxi Driver... o New York, New York... A Cor do Dinheiro... A Última Tentação de Cristo... o comovente Kundun... E, mais recentemente, O Aviador...
Mas no seu trabalho de divulgação do Cinema, do cinema-arte, Scorsese é único! O seu documentário A Personal Journey With Martin Scorsese Through American Movies (1995), por exemplo é, em si mesmo, uma verdadeira obra-prima! Gravei a série, que passou na televisão, quando a RTP2 era um oásis cultural.
Só pelo seu breve discurso sincopado - Scorsese fala aos tropeções, muito rapidamente -, quando foi ao palco receber o Prémio, valeu a pena assistir à cerimónia até ao fim. O Prémio Cecil B. DeMille aqui aplica-se muitíssimo bem!
Também gostei de ver em palco Robert de Niro e Leonardo di Caprio a apresentar o amigo Scorsese e a entregar-lhe o Prémio. Foi um dos momentos mais autênticos e genuínos, de uma cerimónia muito artificial, e apresentada por um humorista inglês sintonizado com a superficialidade de um certo humor americano.
De resto, gostei do breve discurso do realizador alemão Michael Haneke.
E gostei de ver a elegância de Jessica Lange, a destacar-se claramente das outras mulheres. A diferença não estava apenas no vestido, impecável - havia alguns outros vestidos originais -, mas na pose sóbria e amável.
Também gostei de ver na assistência um George Clooney completamente absorvido na causa do Haiti.
Tenho falado aqui de paixão e de energia vital. No meu caso, já devem ter reparado que o meu discurso muda logo quando me dedico ao cinema, aos livros ou a outras vozes que descubro na blogosfera.
Hoje a minha descoberta é esta grande surpresa: a amável Equipa do Sapo destaca as_coisas_essenciais. Obrigada. Esta é já uma grande família de bloggers a criar e a comunicar, a reflectir e a trocar ideias.
Que quem por aqui passe se sinta bem recebido, pois n' as_coisas_essenciais há sempre um lugar para todos os viajantes.
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O impacto do documentário: o Holocausto
Comecei a ler sobre o Holocausto aos 15, 16 anos. Foi também nessa altura que li sobre Mao Tse-tung e a Revolução Cultural. Idade em que a curiosidade se alarga e estica: queremos saber o que se passa no mundo, a nossa história comum. E tudo isto era muito recente. Anos 30, 40. E tão perto de nós, o Holocausto em plena Europa.
O Holocausto, pois. O maior horror. Difícil de assimilar a morte a uma dimensão industrial, como ouço neste documentário que vi hoje à tarde no National Geographic. Registos de diversa natureza, testemunhas do horror. Antes mesmo dos campos de concentração, de extermínio, havia os esquadrões da morte e as valas comuns. Mas não eram suficientemente eficazes: o público era testemunha (as populações podiam assistir, alguns eram mais do que testemunhas, ajudavam a transportar as vítimas e até a cobrir as valas com areia e terra); não eram suficientemente rápidos e gastavam-se muitas balas. Numa visita a uma dessas valas, Himmler terá ficado incomodado com a lentidão das mortes: Matem-nos depressa! Foi assim que surgiu a ideia de concentrar as vítimas em campos, segundo alguns historiadores do Holocausto.
Estas mortes estão documentadas em fotografias e em filme, um deles de um oficial alemão que nesse dia não estava de serviço. Mas há imensas valas por identificar, sobretudo na região que estava até 91 sob o domínio soviético. Para documentar estas acções de extermínio há um padre católico que entrevistou várias populações na Polónia, Ucrânia, Letónia, etc. e já identificou mais de 800 valas comuns. O extermínio começou anos antes dos campos de concentração (em 42) e está muito ainda por identificar e documentar. As testemunhas eram na altura crianças apenas, mas lembram-se nitidamente dessas mortes. Uma testemunha refere mesmo, a chorar, a morte à bala de uma criança perto da escola. Relatos do horror. Outra testemunha foi obrigada pela mãe a ajudar a acomodar os corpos nas valas pisando-os e colocando areia. Muitos não estariam ainda mortos e logo eram cobertos com terra ou outra camada de corpos.
Há relatos de sobreviventes verdadeiramente impressionantes e indescritíveis. Mas como diz um historiador: Estes registos de factos incomodam, mas é necessário encarar esta realidade. É sinal de que estamos ligados à nossa humanidade.
Daí a importância de manter a memória: Para que não volte a contecer.
É que, como diz uma das testemunhas, os autores destes crimes são pessoas normais, que não distinguiríamos de outros se os víssemos num clube, por exemplo.
E como diz um dos historiadores: As pessoas podem ser condicionadas a matar adversários. ... É errado pensar que o Holocausto é um acontecimento histórico isolado. Acontecem outros holocaustos noutras partes do mundo e noutras épocas. E podem voltar a acontecer.
Sim, manter a memória é fundamental, aprender a identificar as sementes do ódio, da linguagem do poder.
Manter a memória e ensinar sobre o Holocausto nas escolas, por exemplo: Memoshoa.
Em 78 passou uma série impressionante, O Holocausto (Holocaust) com uma muito jovem Meryl Streep.
Recentemente também vi dois filmes: Adão Renascido (Adam Resurrected) de 2008, e um outro, que já tinha visto há alguns anos, A escolha de Sofia (Sophie's Choice) de 1982. No primeiro, o sobrevivente acaba por curar a sua dor e viver o resto dos seus dias num quotidiano relativamente tranquilo. No segundo não há cura possível para tanta dor e a morte é só adiada.
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O impacto do documentário: a liberdade
Se o impacto do cinema se revela na metáfora, na parábola, na poesia, o impacto do documentário revela-se na voz dos próprios ou nos testemunhos de quem com eles conviveu. É o impacto da realidade na primeira voz. Mas tanto o cinema como o documentário nos podem revelar a realidade, só que por caminhos e perspectivas diferentes.
O documentário apoia-se nos registos reais de som e de imagem, e leva-nos ao local, quase podemos sentir a atmosfera, as sensações. É certo que pode ter de se apoiar em poucos registos, podem até ser apenas vestígios, e ter de colar tudo até encontrar um fio, uma sequência, uma história real ou que se aproxime da realidade. A criatividade está na sua montagem e na qualidade do texto do narrador. Também pode limitar-se ao simples registo em tempo real.
Hoje vou referir um documentário, Fúria da Liberdade, que vi por mero acaso, hoje à tarde, na TVCine 2. Apanhei-o já a meio, julgo eu, mas fiquei presa à história real: Jogos Olímpicos de 1956, na Austrália, finais de Novembro.
A equipa de pólo aquático da Hungria vê-se apanhada de surpresa: o seu país tinha sido invadido pelos soviéticos. O documentário vai-nos mostrando as diversas reacções dos atletas ao drama: voltar ao seu país ou desertar.
O treinador deu-lhes a possibilidade de representar o seu país nas diversas provas, fosse qual fosse a sua decisão individual no final dos Jogos. Alguns voltaram, outros aproveitaram para não mais voltar. Até recentemente, mas já depois de 1991, quando finalmente os russos abandonaram o território. Oito dos atletas da equipa húngara e dois da equipa soviética irão reencontrar-se passados tantos anos.
Voltando aos torneios, o confronto com a equipa soviética chegou a ser violento. Para já, era um confronto simbólico. Acabou ingloriamente com um atleta húngaro ferido, o Zador (registei o nome, não é magnífico?), mas com a vitória para os húngaros. Que sairiam da Final com a Jugoslávia, com a medalha de ouro, apesar da ausência de Zador. É ainda hoje considerada uma das melhores equipas de sempre de pólo aquático.
O documentário abrangeu igualmente a difícil situação dos húngaros sob o domínio soviético, as traições, as denúncias, as prisões, as sentenças de morte. O testemunho de uma sobrevivente à prisão, voltar ao local, ver os nomes dos companheiros mortos numa placa numa parede.
E o testemunho da viúva de outro, viúva aos 25 anos, que guardara para sempre a casca da última laranja, descascada pelo marido, na sua última visita na prisão, a da despedida.
Mas o que mais me impressionou, no documentário, é o valor liberdade. Todos os atletas húngaros que recordaram aqui esses Jogos Olímpicos e o que significaram para si, destacam o valor liberdade acima de todos os outros, como condição intrínseca de ser humano. Zador, que aceitara o convite dos EUA, refere mesmo que a opção não foi difícil e que nunca se arrependeu: De que me valia ser um dos maiores atletas olímpicos de boca amordaçada?
Damos tão pouco valor à liberdade, e não me refiro apenas à liberdade de exprimir a nossa opinião, mas a de decidir das nossas vidas...
Às vezes é um documentário como este que nos vem acordar para a nossa própria realidade de criaturas a caminho da domesticação.
Liberdade é respirar, diz Zador exemplificando, a inspirar profundamente, com um sorriso juvenil. A liberdade é podermos ser quem somos, diz outro atleta. Esta é, a meu ver, a melhor mensagem do documentário, as várias perspectivas de liberdade, como necessária à própria existência de cada indivíduo, sem a qual não pode ser feliz nem realizar-se plenamente.
